Ossos do Ofício #1

Joana Correia, Nova Type Foundry

Miguel Barbot: Muito bem-vindos aos Ossos do Ofício. Este é um dos primeiros episódios que estamos a gravar. Aliás, é o primeiro, e vai ser também um dos primeiros a ser lançado. Como é o primeiro, tudo isto é uma experiência. É possível que haja pausas, interrupções e problemas técnicos. Não temos aqui uma mega equipa a trabalhar connosco, somos só os dois.

Estamos no nosso estúdio, mas a ideia do podcast é irmos mudando de cenário. Para quem está a ver no YouTube, é um bocado aborrecido olhar para duas pessoas com um fundo fixo, por isso vamos tentando mudar os fundos, os sítios e as ideias. Nos próximos episódios queremos ir a casa das pessoas, aos estúdios e aos sítios onde trabalham, e gravar a partir daí.

Hoje temos a Joana Correia, da Nova Type Foundry. A Joana é uma grande amiga nossa, da Barbot Bernardo e do Ofício. Já trabalhamos juntos há uns anos, praticamente desde o início deste arranjo entre o Ofício, a Barbot Bernardo e o Saber Fazer, quando viemos para este espaço. A Joana tem uma carreira já longa, com mais de uma década na área do type design, apesar de ter uma formação bastante diversa, e continua a ter esse cuidado com a aprendizagem contínua. Joana, bem-vinda.

Joana Correia: Obrigada.

Miguel: Conta-nos um bocadinho deste teu percurso, com várias coisas em paralelo, desde a fundação da Nova Type Foundry até àquilo que tens feito nesta indústria.

Joana: Obrigada outra vez pelo convite e por estar aqui. São quase quinze anos de trabalho dentro do type design. Comecei mais ou menos em 2010, com a parte formativa. Os primeiros anos, 2009 e 2010, foram dos mais formativos. Quando comecei a trabalhar, entrei logo com muita sorte a colaborar com a Google, nos primórdios da Google Fonts, e foi super interessante. Ótimas pessoas, com quem colaborei e com quem aprendi.

Foi uma altura de formação contínua, de fazer muitos workshops com type designers que eu admirava muito. Fiz um workshop com a TypeTogether, e outro com o Alejandro Paul, que eu também admirava muito. Foram anos formativos, mas sempre a trabalhar, a colaborar com outras foundries e a desenhar, a terminar tipografias que já tinha começado.

Mais tarde, em 2015, fundei a primeira foundry com um colega aqui em Portugal, o Natanael Gama. Formámos a Ndiscover, que funcionou durante três anos, e tivemos projetos muito grandes, também com a Google. Fizemos uma tipografia multi-script muito grande, com scripts indianos, e foi um projeto enorme. Ao longo desse tempo fomos sempre trabalhando para outras grandes empresas, a fazer trabalho de produção. Em 2018 acabámos por seguir caminhos separados. A Ndiscover continuou, e eu fundei a minha própria, a Nova Type Foundry, com as minhas tipografias e com novas que estava a desenvolver nessa altura.

Foi sempre um percurso heterogéneo, como disseste, porque ia colaborando também com outras empresas. Em 2020 comecei a trabalhar com o Rainer Erich Scheichelbauer, meu colega dos Glyphs, que tinha uma empresa de produção, a Schriftlabor. Estive a trabalhar com ele durante três anos, mais na parte de gestão e de clientes. Ele é de Viena, mas na altura estávamos no Porto, tínhamos ali um escritório com duas ou três pessoas, com todo o tipo de produção de design. Foi uma altura muito boa de descoberta e de aprendizagem, porque ao mesmo tempo também estava a estudar e a fazer outro tipo de formação. Abriu-me muitas portas. E continuava com a Nova Type ao mesmo tempo, a desenhar tipografias, a manter a foundry ativa aos poucos.

Nos últimos dois ou três anos estive noutro projeto muito grande da Google, o Google Sans Flex, lançado há pouco tempo. Participei durante dezoito meses, mais ou menos, com um colega meu que está em Espanha, com quem também colaboro noutras áreas. Foi super interessante. Mas continuava sempre com a foundry, sempre a manter a comunicação e a construção de novas tipografias.

Depois, em 2023, fui abordada para trabalhar com a The Type Founders, uma empresa muito particular e específica, dos Estados Unidos. Foi um projeto super interessante, porque eles fazem um acompanhamento das foundries que fazem parte do grupo. Trabalhei com eles na parte de design e produção, e a gerir as relações. A parte pessoal é muito importante nestas empresas. Foi também um trabalho espetacular, e fui mantendo a foundry ao lado, embora nessa altura tenha sido mais desafiante, porque estava a trabalhar a full time e depois um pouco mais em part time. Terminou em setembro do ano passado. As coisas passam rápido, foram quase dois anos, um pouco mais.

E agora é isto. Continuo com a foundry, bastante focada em fazê-la crescer, e fundámos também o Ligado, de que depois vamos falar um pouco mais.

Miguel: No final houve também aquele processo que fizemos em conjunto no ano passado, de reflexão estratégica. Acabou por te levar a tomar algumas decisões. É a parte que as pessoas não veem, o backstage de pensar os projetos.

Joana: Sim. Acho que foi imperativo. Foi super importante termos feito esse processo, que já foi há mais de um ano. Fizemos uma estratégia para mim pessoalmente, para a carreira, e para a foundry. Toda a estratégia do que poderia ser possível, e de como é que eu poderia juntar todo o conhecimento já adquirido e toda a experiência num novo negócio. No fundo, acabou por ser a fundação do Ligado, sem sequer sabermos na altura que ele iria existir.

Miguel: Esta é uma indústria muito particular, é um nicho. Para os jovens designers que se calhar vão ouvir isto, e não faço a menor ideia de quem vai ouvir, mas para quem estiver a trabalhar neste mercado, é uma indústria muito particular. Não é muita gente. As pessoas tendem a conhecer-se quase todas, globalmente. Aliás, eu, com o trabalho que tenho feito contigo nos últimos anos, mais o trabalho que fiz durante algum tempo com a The Type Founders, mais o que estamos a fazer com a Verónica na área da cooperação europeia e dos projetos, quer dizer, os nomes repetem-se. Estamos quase sempre a falar das mesmas pessoas. Ou seja, isto é uma indústria extremamente importante dentro do mercado do design, mas é pequena e muito técnica.

Isto leva-me a uma questão. Há aqui naturalmente um gosto particular por toda esta componente ultra técnica. Claro que é um negócio criativo, e tem uma componente de criação e de inovação muito grande. Mas é fundamentalmente uma componente técnica, e há uma decisão de carreira. A pergunta que te faço é: como é que se cria um negócio de type? Não é por estares a brincar com o Glyphs que te tornas type designer.

Joana: Certo. No início, normalmente as pessoas vão pela procura criativa, porque é pelo design e por quererem fazer a sua própria fonte, para poderem utilizá-la em projetos. Há muita gente que vem da área do design e faz esse tipo de trabalho inicial. “Quero fazer uma fonte para usar neste projeto.” Acontecem muitos casos desses.

Mas claro, quando se trata de criar um negócio, é preciso conseguir ter algum rendimento, receber de volta o valor do trabalho. E há várias formas de o fazer. Há pessoas que trabalham sempre quase como freelancers, para outras empresas e para agências, quase como produtores de fontes, mas não de autoria própria. Há pessoas que fazem só trabalho de produção quase a vida inteira: desenhar, completar fontes, desenhar fontes de outras pessoas, produzir trabalho customizado para marcas e branding. São pessoas que acabam por ficar muitas vezes no backstage, mas que são extremamente importantes para a qualidade do trabalho na indústria.

Depois há outras pessoas que fazem um projeto mais autoral, que começam a criar as suas próprias fontes. Antigamente era bastante mais fácil. Bastava colocar algumas fontes na MyFonts e começar a vender, a experimentar, a ver o que funcionava. Agora temos um mercado um bocadinho mais saturado, sobre o qual quero falar mais à frente.

Mas sim, há várias maneiras de trabalhar como type designer. Podes trabalhar numa foundry já existente, com uma estrutura maior, ou numa empresa mais corporativa. Há várias formas. No entanto, não há muitas possibilidades, porque as empresas não são assim tantas.

Miguel: Como disseste, é um nicho, e é um mercado global.

Joana: É, mas concentra-se em algumas pequenas e médias empresas. E há pessoas que trabalham diretamente com elas, não como funcionários, mas como colaboradores durante a vida inteira, o que também é muito valioso. E depois há os independentes. A maioria são independentes, e a maioria cria as suas bibliotecas e tenta criar valor. É disso que eu gostaria de falar mais à frente, desta questão do IP. Como é que se rentabiliza.

Miguel: Aquilo que eu acho que as pessoas não têm noção é que criar uma fonte é uma coisa muito cara, porque envolve muitas horas de trabalho técnico. Estamos a falar de investimento. Portanto, desculpem todos os freelancers, mas nós também trabalhamos com alguns, volta e meia, quando temos o pipeline muito carregado. Só que não é a mesma coisa contratar um designer para fazer um trabalho de produção para um cliente e contratar um type designer para fazer um trabalho altamente técnico. São poucos e são caros. As pessoas não têm noção do que envolve uma foundry em termos de recursos humanos, e de tudo aquilo que é necessário para ter o IP cá fora e para que ele seja, para todos os efeitos, uma fonte de rendimento.

Joana: Sim, são duas coisas diferentes. Posso criar uma fonte retail, que vai ficar para a vida inteira na prateleira, disponível para as pessoas licenciarem. Outra coisa são as pessoas que trabalham, por exemplo, com agências, e que têm de fazer uma fonte em dois meses. São projetos de carácter diferente. Quando se trata de criar um retail, é pensar no melhor produto possível, que vai estar disponível durante anos. O compromisso tem de ser um pouco maior, de qualidade técnica e de manutenção. Tentar ter à partida um produto que vai ser muito flexível e muito fácil de utilizar. E para isso é necessário um grande conhecimento técnico e de design, para que aquilo crie valor para os designers, para que seja uma ferramenta bastante útil e interessante. O que nem sempre é fácil, porque nunca sabemos as tendências nem a forma como o design vai evoluindo.

Miguel: E aí vem também a parte da experiência, e não só. Da sorte, muitas vezes. Até onde é que deve ir uma fonte em termos de profundidade? Hoje em dia estamos a falar de múltiplos formatos: digital, print, mobile, vídeo, o que quer que seja. Para ti, qual é o ponto de equilíbrio entre a profundidade da fonte, ou seja, até onde é que a família vai, que variações tem, que possibilidades oferece, e a rentabilidade e o tempo? Suponho que a dada altura é preciso parar. Ou não, e continuas a fazer crescer a família?

Joana: Antigamente havia mais a ideia de que era obrigatório lançar e não mexer mais, nunca mais tocar naquela fonte. Agora já não é bem assim. Estamos noutra fase, em que já existe a ideia de testar o desenho só com o latino e depois expandir para outros scripts. Ou ao contrário, começar com outros scripts e depois juntar mais coisas.

Normalmente as tipografias podem ser utilizadas em quase todos os meios: digital, print ou vídeo. Mas pode-se pensar em tipografias focadas numa área específica, e isso às vezes acaba por ser uma boa forma de atrair as pessoas. Quanto mais específico for o problema que a tipografia está a resolver, mais fácil vai ser as pessoas identificarem-se com o projeto. É uma coisa difícil de fazer, dizer “vou fazer uma fonte especificamente para resolver este problema” e falar diretamente aos designers que têm esse problema. Mas normalmente os designers, quando estão a desenhar, acabam por o fazer de uma forma mais livre, criativa e espontânea, a seguir os seus próprios interesses.

Então, quando a fonte ganha tração no mercado, é uma boa altura para pensar em desenvolvê-la mais. No início pode ter apenas poucos pesos, ou menos profundidade, e depois pode-se voltar a ela. É uma coisa que antigamente não acontecia tanto. Agora já se pode voltar, expandir, fazer outras larguras, fazer outros scripts. Porque o tempo que se demora a fazer esse investimento muitas vezes não compensa fazê-lo logo à partida. É melhor diluí-lo no tempo e perceber se a fonte realmente tem retorno, se as pessoas se identificam ou não. Se o projeto não tiver muita tração, se calhar não vale a pena investir muito mais.

Mas isto para dizer que há tipografias em que se investe imenso tempo, trabalho e projetos enormes, e muitas vezes são aquelas fontes que têm dois ou três pesos que são as mais vendidas. Nunca sabemos. O tempo e a qualidade nem sempre são evidência das vendas.

Miguel: Outra questão, e vamos um bocadinho mais à frente falar precisamente da parte da venda. Mas, só na parte da produção, tens ideia de quanto custa fazer uma fonte assim, vá lá, mais ou menos completa?

Joana: Em termos de fazer essas contas pelo volume de trabalho que envolve, eu diria que à volta de quase dez mil euros, um pouco menos. Depende de onde se vive, depende do valor da hora de cada um, e da capacidade de rapidez ou não. Quanto mais expert, mais rápido, e acaba por ser mais económico produzir.

Miguel: Por isso, isto basicamente não tem uma componente de intangibilidade. Claro que é uma coisa transacionável, mas a produção está claramente ligada ao tempo de trabalho. Por vezes é difícil, para quem está a criar um negócio, conseguir fazer essa contabilidade do seu próprio tempo. É muito subjetivo. Se eu tiver um pipeline de trabalho muito cheio e um fluxo de clientes muito regular, eu sei quanto vale a minha hora, sei quanto custam as coisas, porque sei quanto estou a ganhar à hora. Cada hora de investimento que estou a fazer no projeto é uma hora que não estou a ganhar com um cliente. Mas isso a mim não me acontece, e já tenho uma carreira longa. Não tenho um plano completamente cheio. E não acontece com certeza a quem está a começar, para quem é um bocadinho difícil fazer essa conta.

Joana: Sim. Eu diria que é importante pensar que no início não há dinheiro que pague. Quem está a começar tem mesmo de investir bastante tempo no trabalho e na criação. Acho que o importante aqui é pensar que as fontes são um retorno a longo prazo. Não é uma coisa que vai ter retorno rapidamente. O ideal é perceber que é um investimento de tempo, e que vai demorar o tempo que demorar. Claro que nem toda a gente tem essa possibilidade, e essa é a parte difícil. Consegue-se conjugando com outras áreas de trabalho, como eu sempre fiz. Quando as pessoas perguntam, eu trabalhava sempre por trás, para outros clientes, sempre a fazer trabalho de produção para poder, no fundo, pagar as minhas horas de produção das minhas fontes.

Miguel: É o que tenho agora com o mercado editorial. É exatamente como estares a escrever um livro. Se tiveres a sorte de teres um adiantamento, o que já quase não existe. Mas vais ter de dedicar o teu tempo, muitas vezes o teu tempo livre, para criar essa obra, e depois ela vai render. E, principalmente com aquilo de que vamos falar a seguir, que são as plataformas, vai render em royalties e em IP, uma coisa que se expande no tempo. Mas com uma grande vantagem aqui no type design: nós podemos revisitar o nosso trabalho, podemos promovê-lo, podemos continuar a fazê-lo de uma forma muito mais autónoma. Quando escreves um livro, normalmente tens ali uns anos em que ele vende bem, e a não ser que vás parar à categoria de ultra bestseller, em que vendes durante muitos anos, tem de haver uma curva descendente. No type conseguimos ter várias coisas a vender em simultâneo, e à medida que a nossa biblioteca e a nossa marca vão crescendo, potencialmente vamos ter melhor retorno.

Joana: Mas também há pessoas que conseguem fazer o bestseller, fazer realmente aquela fonte que fica, que tem um impacto enorme. E muitas vezes nem é logo no início. São tipografias que demoram algum tempo, até que de repente têm um impacto gigante e passam a ser super utilizadas. Claro que agora é mais difícil conseguir esse impacto, embora continue a existir.

Miguel: Temos o caso de alguém que fez uma monospaced que é super bem vendida.

Joana: Completamente, a MonoLisa. Um projeto que foi feito muito especificamente para os programadores, uma monospaced específica para eles. E teve um retorno incrível. Acho que é isso: é muita sorte, é uma intenção, mas nem sempre é fácil.

Miguel: E aquela do Connary Fase que foi usada numa série muito conhecida (Severance).

Joana: Sim, na televisão. Basta ser escolhida para uma capa, um filme, uma série. Sem dúvida, há momentos em que pode acontecer ter esse bestseller, e normalmente depois é esse que vai financiar todos os outros. Mas, como qualquer escritor ou produtor de design e de conteúdo, não se pode parar. Tem de se continuar a fazer coisas novas, a tentar criar, mesmo que as pessoas continuem ligadas só a uma ou duas fontes da biblioteca. Mas a biblioteca, como disseste e bem, vai dar esse espaço para as pessoas poderem continuar o seu negócio e diluir, no fundo, os royalties por várias fontes. E isso cria muito mais valor, porque se eu tiver só uma bestseller, só se for mesmo uma super bestseller. A minha querida Proxima Nova foi também um caso excecional de popularidade, ainda hoje.

Miguel: Qual é a tua fonte que vende mais?

Joana: É interessante, porque depende muito da plataforma, e por isso também vamos falar sobre as diferentes plataformas. Há diferentes bestsellers em cada uma. No meu site, se calhar é a Laca. E a Loretta também tem sido muito bem recebida. Já se falarmos da Adobe, trata-se da Lemongrass, que é a minha fonte script, e que acaba por ter um custo de aquisição muito baixo para o designer, ao contrário do custo do licenciamento direto através do site.

Miguel: A pergunta é também esta: como é que se vende uma fonte? Quais são, para todos os efeitos, os canais que temos para o fazer? Claro que há o canal direto, quando alguém nos contacta diretamente para encomendar um trabalho ou para licenciar. Mas onde é que elas estão disponíveis?

Joana: Antigamente, há quinze, vinte anos, quando eu comecei, já havia algumas foundries digitais, e a maior parte das pessoas tinha começado a vender as suas fontes na FontShop, que era muito famosa e que tinha uma curadoria de alta qualidade. Toda a gente olhava para lá e tentava lançar as fontes lá, ter as suas fontes com a label da FontFont. Era uma coisa muito boa, porque as royalties eram boas e porque eles vendiam bastante na altura. Depois também tínhamos a MyFonts, que nessa altura ainda não era a piscina gigante que é agora. Na altura conseguia-se realmente ganhar dinheiro mensalmente. Mesmo quando eu comecei com a Ndiscover, começámos a lançar e ganhava-se alguma coisa com as fontes. Era diferente do que é agora. As coisas mudaram muito nestes últimos anos.

E depois vende-se no site direto. Antigamente não havia a possibilidade de fazer loja direta. Isso foi uma coisa recente, de alguns anos. Licenciar diretamente as licenças, os pesos, as aplicações. Não é propriamente uma regra muito uniforme na indústria, mas isso já é outra história. Não vamos falar de licenciamento, é uma área mesmo difícil.

Normalmente as pessoas podem licenciar para vários tipos de utilização: desktop, web, app. Agora também existe para social media, algumas foundries fazem isso. E broadcast. Embora cada vez mais as licenças maiores, mais volumosas, para clientes maiores, sejam feitas diretamente, em contrato. É quase como ter um cliente e especificar. E depois existem as subscrições, como a da Adobe. São formas diferentes de adquirir as fontes.

Agora, como é que se vende? Há estratégias diferentes. Há foundries completamente independentes, que só vendem diretamente no próprio site. Há outras que estão em todas as plataformas: MyFonts, Fontspring, Creative Market, e muitas outras. E agora também na Google Fonts, porque as fontes que estão na Google Fonts são gratuitas, mas foram pagas aos designers. Não são gratuitas para quem as faz. As pessoas recebem de uma vez só, no fundo, o valor que receberiam durante, imaginemos, dez anos de royalties. E isso também é um trabalho.

Depende muito da estratégia de cada foundry e do tipo de trabalho que é. No caso da MonoLisa, que fala diretamente ao programador, vendem só no próprio site, porque não faria sentido um projeto tão específico estar numa piscina como uma fonte que depois poderia perder alguma força. Por acaso já nem sei se está ou não, estou na dúvida. Mas as vendas maiores são realmente no próprio site, porque é muito específico.

No meu caso é um pouco variado. Algumas fontes vendem mais no site, outras funcionam melhor nas plataformas. Mas eu diria que a Adobe Express funciona muito bem, por causa desta nova utilização nas redes sociais. As fontes script são muito importantes também. A Gracia é muito utilizada para packaging, já a encontrei várias vezes, e esse tipo de utilização existe bastante.

Miguel: Quanto pode render uma fonte por ano, no global das plataformas? Consegues ter uma ideia?

Joana: É difícil, porque eu normalmente olho para o global de toda a biblioteca. Não vou dizer aqui os meus números. E também vai depender imenso do estado do mercado, e de onde as pessoas estão situadas, o que faz muita diferença. Se eu tiver uma foundry na Alemanha, é capaz de ser diferente.

Miguel: Para aqueles dez mil euros de investimento, quando é suposto termos um retorno?

Joana: Vai ter muito mais do que o retorno. E o retorno inicial é capaz de acontecer em dois ou três anos. E depois vai continuar. Se eu tiver feito uma fonte e ela ainda estiver ativa dez anos depois, já rendeu muito mais do que o tempo que foi gasto. Por isso vale muito a pena.

Miguel: Ou seja, ao fim de dois ou três anos, todo o dinheiro que está a entrar já é lucro, já é depois de ter feito o investimento.

Joana: Sim. Não estou a falar de receber dez mil por uma fonte por ano, isso é o mínimo. Claro que é possível mais. É um bom retorno. Se tivermos dez fontes, acaba por já ser um retorno maior, e ao fim de X anos acaba por ser muito bom. E estou a falar de números pequenos, porque é a minha experiência, a minha biblioteca. Tenho tido um bom retorno, mas há pessoas que têm muito mais. Depende muito também do foco e do nicho de cada foundry.

Miguel: Em alguma fase estiveste dedicada a cem por cento à foundry? Tiveste um período de um ou dois anos em que só fazias isto?

Joana: Acho que sim. Houve ali, pelo menos, um ou dois anos nos primeiros anos da fundação em que a maior parte do tempo foi dedicada a construir isto. Diria que de 2015 a 2019, se calhar setenta por cento do tempo era dedicado à foundry, a desenhar as fontes, e trinta por cento a trabalho para outras pessoas. Só que o trabalho para outras pessoas é o que me rende bastante, por isso não é preciso trabalhar tanto. Não é preciso fazer muitos projetos para ter ali um extra de conforto e conseguir dedicar o resto do tempo à foundry.

Depende das pessoas, e depende muito de onde vivem. Eu nessa altura estava a viver no Porto, com muito poucos gastos, e por isso conseguia fazê-lo. Era uma altura diferente. Foquei muito tempo nessa altura em fazer crescer a biblioteca, sem grande intenção. Na altura era mesmo o que eu estava a fazer, era o que eu tinha para fazer, e fui criando. Acho que só mais tarde é que uma pessoa se apercebe do quão importantes foram esses anos, porque foram anos de formação, de aprendizagem e de muita criação. De criar ali uma estrutura, uma base, fontes que agora são muito populares, como a Laca e a Artigo. Todo esse trabalho foi feito nessa altura. As outras já foram mais tarde, já feitas a par de outros projetos, mas também foram bem-sucedidas.

Para mim foi sempre importante. Conheço pessoas que trabalham de outras formas, que se focam muito no retalho e fazem muito pouco trabalho para outros. Mas se calhar também terão tido mais sorte logo com as vendas das fontes.

Miguel: Vamos entrar na reta final. Há toda uma questão agora no mercado, que é constituído maioritariamente por independentes ou por negócios muito pequenos. Mas a verdade é que isto está a caminhar para um modelo quase de streaming, de formalização do acesso às fontes. Para nós, estúdios, facilita muito. É uma conveniência muito grande. Qual é a tua ideia sobre isto?

Joana: Acho que a tipografia acabou por chegar a um ponto em que toda a indústria reflete o panorama atual, esta sensação de que as pessoas querem conveniência, querem subscrições, querem aceder a uma variedade de possibilidades de forma conveniente e mais económica. Isto começou na música, como sabemos, já há bastantes anos, e depois começou a acontecer com software. A maior parte das pessoas agora tem subscrições para tudo. Estava-me a lembrar no outro dia que até já pago subscrições de newsletters.

Miguel: Isso é falar do valor de um pagamento quase direto ao autor. Estás a falar de nós termos uma subscrição que nos dá acesso a múltiplas fontes, exatamente como acontece com a Adobe, que estamos a utilizar. É um bocado no-brainer para um projeto em que não temos uma necessidade super específica de licenciamento.

Joana: Sim, acho que veio da necessidade de uma resposta ao que já acontecia. Começou a acontecer com a Google, porque toda a gente começou a utilizar muito a Google Fonts, porque era gratuito e porque dava acesso a muitas fontes. Depois apareceu o Typekit, que foi a primeira empresa a fazê-lo, e havia também a Webtype. Começaram estes novos projetos, e a Adobe agora é a maior, foi crescendo imenso. Não é por acaso: tem um alcance enorme com as aplicações, e colocar as tipografias dentro da Adobe foi uma forma muito interessante para os designers, pela conveniência, mas também para quem produz, que acaba por ter um alcance muito maior. As minhas tipografias nunca seriam tão utilizadas se não estivessem lá.

Miguel: No nosso caso, no estúdio, usamos muito mais, e é muito mais simples. Damos imensa flexibilidade visual. Conseguimos basicamente sair do Illustrator para o Squarespace com acesso à biblioteca. Conseguimos trabalhar o print, conseguimos trabalhar múltiplos canais sem outro custo que não seja a subscrição que já pagamos para usar os programas.

Joana: E tem a ver com toda essa ideia de plataforma. Como falámos, o Figma também tem acesso às fontes Adobe. Há muitas plataformas, e agora começam a aparecer outro tipo de plataformas, mais com curadoria. É o caso da Fontstand, mas também da plataforma da The Type Founders, que é uma biblioteca muito específica, mas também é uma piscina de fontes. É uma coleção a que eu tenho acesso, de estúdios e de fontes. Ou mesmo a Fontstand, onde já existe a subscrição por foundry, mas onde no futuro provavelmente vai estar acessível toda a coleção. Porque a conveniência e esta possibilidade de ter acesso a muito mais design disponível tornou-se completamente importante para os designers.

O Canva também é outro exemplo. Tem cada vez mais utilizadores, e não só profissionais. Esta é uma área que está a crescer imenso. São pessoas que gostam de fazer os seus trabalhos no Canva e que têm acesso a uma tipografia com muita qualidade, que não tinham antes. E essas fontes do Canva são servidas por várias plataformas: pela MyFonts, mas também pela Type Network ou por outras, que dão acesso às nossas criações.

Claro que há pessoas que preferem não ter as fontes disponíveis nessas plataformas, porque isso vai canibalizar um pouco as vendas diretas. Há muitas pessoas que preferem fazer a venda direta porque acabam por ter os cem por cento. Estando nas plataformas, eles também tiram a sua parte. Não é uma parte grande, mas chegam a muito mais pessoas e criam esta ideia de conveniência.

Miguel: É difícil integrar os catálogos?

Joana: Neste momento já não é como era dantes. Já não é fácil entrar na Adobe. Eu tive muita sorte, estava no momento certo e também tinha um tipo específico de biblioteca. Neste momento já não é assim tão fácil. Eles já têm muitas foundries, e fazem uma curadoria bastante apertada com o tipo de produto que querem, com a qualidade. Porque tem a ver com a utilização das fontes, que mudou completamente. As pessoas agora comunicam de outra forma, comunicam com tipografias em movimento, nas várias plataformas.

Miguel: Essa era a última questão, porque queremos manter isto dentro dos trinta minutos. Não queremos deixar ninguém pendurado com cinco minutos de podcast para ouvir no regresso.

No final do ano passado deste um grande passo com o Paley Dreier, um dos fundadores da The Type Founders. Criaram o Ligado Studio, que tens vindo a promover recentemente, e a que nós também temos tentado dar um bocado de visibilidade. É um projeto que tem paralelismos com aquilo que fazemos na Barbot Bernardo, embora nós trabalhemos o nicho da arte e da criatividade. Vocês vão ainda mais fundo, e trabalham a dar apoio estratégico, de business development e até de estruturação, a type designers e a foundries. Como é que isto foi criado, e o que é que vocês fazem? Um pitch.

Joana: Vou tentar ser rápida. O Ligado Studio, cujo nome foi muito trabalhado, traz esta ideia de estar conectado, de estar atento às tendências e ao mercado. De perceber como é que se pode fazer crescer as pequenas e médias empresas, porque estamos sempre a falar de pequenas e médias empresas em type design. No nosso caso vamos focar-nos mais nesta área, porque é a nossa experiência, e é ajudar as pessoas a fazer crescer os seus negócios. O nosso mote é “helping type thrive”. Esta ideia de ajudar a alcançar um pouco mais de mercado, de conseguir vender, de tornar os negócios sustentáveis.

Porque se as pessoas querem continuar a criar tipografia, já não estamos no mesmo ambiente de há quinze anos. A forma como as pessoas usam tipografia é diferente, e nós procuramos dar esse apoio. Já estamos a começar com alguns clientes, ou para iniciar uma nova foundry e conseguir fazê-lo de uma forma bastante intencional e bem estruturada, ou para pessoas que já estão na indústria há muitos anos e que querem continuar relevantes, atentas às tendências. Não às tendências de design, mas às de mercado. Perceber como é que se vende, como é que se otimizam os sites, o próprio design. É também por isso que somos diferentes, porque na nossa área vamos ajudar as pessoas a pensar as próprias tipografias, a pensar nos produtos como algo durável e sustentável para o futuro.

O Ligado começou no ano passado. Acabei por sair da The Type Founders por vontade própria, porque me queria voltar a focar muito na Nova Type, continuar a fazer crescer a foundry. E já havia esta ideia, desde o nosso trabalho de estratégia, de fazer um pouco este trabalho de ajudar, de trazer a experiência e o conhecimento que eu já tinha, e que também tinha estudado, com o MBA e toda essa treta. De ajudar as foundries a ganhar esse conhecimento.

O Paley é um colega que trabalhou comigo, um dos fundadores da The Type Founders, e tem muita experiência. Tem mais ou menos os mesmos anos que eu na indústria, na parte mais legal, na parte de licenciamento, e conhece muito bem o mercado por dentro e por fora, também na parte de design. Juntámo-nos, começámos a falar desta ideia de ajudar as foundries, e vimos que juntos tínhamos uma experiência muito importante.

É mesmo por vontade de gostar de fazer os negócios crescer. Acho que é uma das coisas que eu e o Paley partilhamos, gostar de ver as coisas a ganhar forma, a ganhar força, ajudar outras empresas a fazer esse trabalho, assim como eu fiz com a Nova Type ou como outras pessoas foram fazendo. Mas tentar ajustá-las e ajudar as pessoas a estarem adaptadas e mais resilientes para o futuro. Trata-se um bocadinho disso, de preparar as pessoas para o mercado e para as mudanças que já foram acontecendo.

Miguel: Fantástico. Se és um jovem designer e queres entrar neste mundo, ou se tens uma foundry, como falámos, este é um mercado com uma comunidade muito específica. Não digo fechada, mas muito específica. A Joana, o Paley e o Ligado Studio podem ser excelentes ajudas. Têm vários programas, desde os mais simples a outros mais avançados, com níveis de envolvimento diferentes. Se queres entrar nesta indústria, eles são as pessoas certas, e têm competências em todas as áreas, desde o licenciamento até ao desenvolvimento e à comunicação.

Vou deixar na descrição do episódio os links todos para a Nova Type Foundry, para o Ligado, etc. Depois vocês podem ir explorar por conta própria. Quando publicarmos estes podcasts, o Ligado já vai ter um site novo, que vai ser bom. Somos nós que o vamos fazer, e estamos literalmente nestas semanas a terminá-lo. Vai ficar bastante fixe, assim o esperamos. Quando for para o ar, já vão poder ver exatamente aquilo que o Ligado Studio pode oferecer.

E já sabem, podem encontrar o trabalho da Joana no site da foundry, ou nas vossas plataformas habituais, porque a Joana está em bastantes plataformas com as suas fontes.

Muito obrigado, Joana, e muito obrigado a vocês que estiveram a ouvir. Brevemente iremos trazer outros criadores e outras pessoas aqui para falar sobre os seus negócios criativos. Obrigado e até breve.