Ossos do Ofício #2

Hugo Branco, VIC// Aveiro Arts House e VicNic Records

Miguel Barbot: Temos hoje o Hugo Branco, um amigo não de longa data, mas um bom amigo, e um bom parceiro da Barbot Bernardo e do Ofício e temos trabalhado juntos nos últimos três anos. O Hugo é filósofo, flâneur, um amante das cidades, músico e autor, e há uns anos aterrou em Aveiro, que é a origem da família dele. Aterrou neste sítio onde estamos, a VIC, Aveiro Arts House. Quem segue o nosso trabalho já tem visto muita coisa nas nossas redes, porque ajudamos o Hugo com a comunicação e temos estado a trabalhar em diferentes projetos com ele.

No fundo, é a casa dos avós, onde o Hugo passou muito tempo, onde a mãe do Hugo, também uma autora com bastante estaleca aqui na praça, cresceu, e onde os avós do Hugo desenvolveram toda uma prática. Digo os avós porque não há um sem o outro.

Hugo, talvez possas explicar um bocadinho o que é este prédio, que na verdade é uma casa com vários andares, com várias valências e várias coisas a acontecer. E como é que aterraste aqui há uns anos.

Hugo Branco: Obrigado, Miguel. Comecemos por aí. Como disseste, era a casa da minha família, dos meus avós, da minha mãe, dos meus tios, onde os três cresceram. Embora ambos os meus avós fossem farmacêuticos, o meu avô (Vasco Branco) era uma pessoa muito envolvida nas artes, e dedicou-se ao longo da vida sobretudo à pintura, à cerâmica, à literatura e ao cinema. Deixou uma obra extensa em todas estas áreas.

Aveiro é um bom exemplo. Era a cidade dele, a cidade que ele amava, e está carregada e adornada por obra pública dele, no centro e em várias zonas. Mas ele chega a ter painéis de cerâmica em hospitais no Japão. As trinta a quarenta curtas-metragens que realizou valeram-lhe prémios de cinema em vinte e um países, nos cinco continentes. Deixou, penso eu, uns catorze livros publicados e pelo menos outros tantos não publicados, talvez mais do que os que foram publicados. É uma pessoa com uma obra muito extensa, e dentro dessa obra experimenta muito. No cinema, por exemplo, trabalha com documentário, com cinema experimental, com ficção e com animação, que é a área onde se especializa e que, penso eu, lhe dá mais prazer.

Este projeto surge um pouco nesse contexto. Em 2016 a casa estava em risco de ser vendida, e eu estava na altura a aterrar do México para dar continuidade ao projeto da Viral Agenda com a minha equipa cá. Face a esse risco de venda, senti necessidade de intervir por várias razões. Para já, porque é efetivamente uma casa com um legado artístico, com uma tradição nas artes, na cultura e na política que é bastante consistente. Por outro lado, por uma ligação afetiva e pessoal, pelo facto de ter vivido cá até aos quase cinco anos. Nasci no Porto, mas vivi aqui até aos quase cinco, altura em que mudei para o Porto e comecei a estudar lá. Mas sempre fui muito próximo da casa dos meus avós e da minha família em geral. Portanto, para mim era o desastre absoluto que esta casa se vendesse. Penso que se perdia um espaço de referência na cidade.

Na altura a casa estava fechada há doze anos. Foi um desafio chegar aqui e perceber o estado dela. É um edifício de cinco andares no centro de Aveiro, mesmo no coração da cidade. Visto de fora, tirando os painéis de cerâmica do meu avô, que às vezes escapam a quem não esteja atento, é um edifício residencial como qualquer outro daquela época, mas que cá dentro encerra uma série de surpresas, como sabes. Eu chego aqui e apanho com três andares completamente vazios e com dois andares onde estava todo o recheio da casa atulhado.

A casa ainda foi cuidada durante bastante tempo, mas a certa altura houve outras prioridades, e a prioridade era cuidar dos meus avós. Não havia tempo para tudo, não havia recursos para tudo, e deu-se prioridade às pessoas por cima do património. A questão da venda vinha pelo mesmo motivo: a prioridade eram as pessoas e o bem-estar delas, por cima do património.

Entretanto tentei arranjar uma solução de compromisso. Pedi à minha família um ano para começar a desenvolver este projeto e para rentabilizar a casa. Penso que foi o facto de ter passado tantos anos a viajar e a ter contacto com projetos de várias ordens, e também a desenvolver os meus próprios projetos, mais punk, mais anarcas, que me deu estaleca para agarrar nisto já com outra visão. E ainda bem que o fiz quase aos quarenta anos e não aos trinta, porque já tinha outra forma de pensar as coisas.

Miguel: O que é a casa neste momento?

Hugo: A casa neste momento encerra uma série de projetos de ordens distintas. Chamamos-lhe um ecossistema criativo porque, mais do que tudo, é um ponto de encontro para várias tipologias de habitantes. Desde os turistas que ficam cá na guest house, em que cada quarto está dedicado a uma das artes do meu avô, portanto também ligada a esse património. Temos artistas em residência, que normalmente ficam mais tempo e vêm desenvolver os projetos deles ou trabalhar connosco em projetos nossos, e tem gente de todo o mundo, da Europa, da América Latina, da Ásia, de um pouco de todo o lado. Temos voluntários, normalmente dois ou três, que trabalham connosco por períodos de dois a seis meses, e que também vêm de todo o lado. Depois temos a equipa da casa, a equipa core, e temos os públicos de Aveiro que nos visitam durante os eventos, porque realizamos também uma série de concertos.

Miguel: Quem for ao nosso blogue, que prometemos que até ao final do ano estará em português, encontra um post muito recente com algumas fotografias tiradas aqui, para ter uma perspetiva. A dada altura temos de decidir uma língua ou outra. Vou deixar os links na descrição do episódio.

Mas a casa tem camadas. Há um cinema, há um piso onde fazes residências artísticas com regularidade, há a guest house, e depois há um piso privado.

Hugo: Sim, os pisos quase que refletem os projetos. No rés do chão temos o escritório e uma espécie de loja galeria, onde temos os nossos discos à venda, de que vamos falar depois, algum trabalho do meu avô em exposição e outros produtos que surgem dos projetos desenvolvidos cá em casa. No rés do chão também estão os quartos privados dos voluntários e a área de staff, uma cozinha e uma sala de estar e jantar.

Depois, cá em baixo, onde estamos agora, estamos na biblioteca estúdio, que é o piso preferido da casa, cheio de cantinhos. Além de algumas salas de arrumação, onde também temos obra em exposição do meu avô, temos esta biblioteca que me funciona como estúdio e é um ponto de encontro onde me junto com outros músicos, e onde os trago para colaborar, não sempre comigo, às vezes entre si, e onde desenvolvemos uma série de projetos ligados a essa área.

E temos o nosso auditório, que funcionou como cinema clandestino durante a ditadura, onde se viam os filmes proibidos, onde o meu avô mostrava os filmes dele e onde uma série de outros cineastas amadores vinham mostrar os seus. Era sobretudo um espaço de partilha e de discurso livre, numa altura em que isso era complicado. Havia uma série de pessoas que viajavam e traziam livros, revistas, discos, filmes, e este era um dos sítios onde era possível partilhar esses conteúdos com a comunidade.

No primeiro andar temos a guest house de que falámos, com quatro quartos dedicados às quatro artes do meu avô e com todas as áreas comuns. Já funciona há dez anos e temos muito brio na forma como a tratamos e como ela vai evoluindo ao longo dos anos. Tentamos manter sempre a estética original, ainda que muitas vezes com mobília que não é original, mas mantendo a linha. Temos muito bons resultados nas várias plataformas, Airbnb, Google, Booking, com ratings elevadíssimos, e as pessoas gostam de cá ficar também porque são tratadas de uma forma profissional mas informal, que é como tentamos sempre trabalhar. No fundo, temos muita atenção às pessoas que cá ficam e às suas necessidades, mas tratamo-las de uma forma informal e mais familiar, que para nós faz mais sentido.

Miguel: O segredo do criativo é trabalhar com prazer…

Hugo: Sem dúvida. E penso que as pessoas que hoje trabalham na parte da guest house são pessoas que sempre gostaram de receber. Tanto eu como a Liliana somos pessoas que gostam de receber.

Miguel: Ou seja, dá trabalho, mas estás a aplicar algo que já é uma característica tua e já é um gosto teu.

Hugo: Depois, no segundo andar, temos normalmente uma área de residências, também com quatro quartos e zonas comuns, onde recebemos artistas de todo o mundo que podem vir desenvolver projetos connosco ou desenvolver os seus próprios projetos e investigações.

Miguel: Este pessoal chega cá através de projetos ou autofinanciado?

Hugo: Na maioria das vezes é assim. Nós não somos financiados para residências artísticas. O que acontece é que, quando temos projetos financiados em que nos dão a possibilidade de convidar artistas em residência para os desenvolver connosco, aí somos nós que nos encarregamos de tudo, também ao nível financeiro. Quando são residências autopropostas, normalmente são os artistas que têm de arranjar o seu próprio financiamento, e nós funcionamos como facilitadores, no sentido em que criamos pontos de ligação entre eles e todos os recursos de que precisem. Seja ao nível de recursos humanos, seja de reuniões que precisem de ter com alguém de um determinado departamento da universidade, da câmara ou de outro parceiro, seja de espaços de apresentação ou de espaços de trabalho, que serão o espaço que temos disponível aqui. O que oferecemos é um espaço de estadia confortável e inspirador, e depois facilitamos tudo o resto que seja necessário para o desenvolvimento da residência.

Depois temos ainda mais um andar no sótão, uma espécie de loft muito pintas, que foi a minha casa durante os oito anos em que vivi aqui, e que agora também está para alugar.

Miguel: Quem acompanha o projeto de fora pode ter a sensação de que é um gajo de fora que aterra e que depois tudo acontece aqui com o pessoal de fora, sejam turistas ou artistas em residência. Não é bem verdade. A casa tem uma relação muito forte, até quase como força motriz, com um certo underground em Aveiro. Quando chegas cá, há dez anos mais ou menos com este projeto, o que é que encontras do ecossistema? Como é que isso evoluiu? É um aspeto importante para percebermos como é que estas coisas se sustentam, e o podcast está muito focado nisso. Como é que alguém pode fazer uma coisa destas? Isto não vive sozinho, não vive para si.

Hugo: Nós chegámos no fim de um ciclo e no início de outro. Deparámo-nos com um panorama cultural que à primeira vista nos parece deprimido, e dá-nos a sensação de que as pessoas criativas da cidade se sentem um bocado isoladas e desanimadas. E daí que começámos a fazer os nossos eventos, os nossos concertos. A vontade de o fazer surge, no início, não de querer ter uma programação cultural, que depois acabou por surgir naturalmente, mas de que esta casa volte a ser um porto seguro para amantes das artes e da cultura e para mentes criativas. Um sítio onde se possam encontrar de forma informal, e voltamos outra vez ao informal, porque está um pouco naquilo que é o nosso ADN de trabalho. Onde as pessoas se possam encontrar informalmente e eventualmente começar a discutir projetos, ou a possibilidade deles, antes de reuniões, se calhar com um copo na mão e um prato de comida no outro, e a ver um concerto.

Nós somos pessoas que trabalham sempre em colaboração e em rede. Por isso, quando chegamos a uma cidade, neste caso Aveiro, interessa-nos saber o que existe, quem está a trabalhar em quê, com quem podemos vir a trabalhar de futuro. Muitas destas pessoas acabam por se transformar nos nossos amigos e nas pessoas com quem passamos tempo em alguns espaços da cidade. Na altura o Mercado Negro, onde encontrávamos estas pessoas à noite, e conversávamos, e de onde surge muita coisa. É uma coisa que neste momento, para mim, está muito morta nesta cidade: espaços de encontro à noite. Quem trabalha na cultura e nas artes sabe que estes são espaços importantes, e que a noite também é um espaço importante na cidade.

Miguel: A Universidade não mobiliza?

Hugo: Não faltam bares de trap e reggaeton, e a Universidade mobiliza. A questão é que, ao nível dos professores, penso que a grande maioria dos professores da universidade não vive cá. E a grande maioria dos alunos está talvez numa fase de início de vida em que muitas vezes ainda não tem os gostos bem definidos, e então vão atrás daquilo que é mais mainstream e mais comercial, embora haja muitos exemplos contrários.

Estamos neste momento num momento complicado, mas voltemos um bocadinho atrás, ao momento em que chegámos, porque eu estava a dizer que era o fecho de um ciclo mas também o início de outro. Nesse momento em que chegámos estavam também a despontar uma série de projetos interessantes. O Bruno dos Reis está a agarrar no GrETUA, por exemplo, e está a contribuir para o transformar numa coisa diferente e muito mais parecida com aquilo que é hoje, que é um dos espaços mais ativos na cidade, não só no que diz respeito ao teatro, mas também à música alternativa.

Miguel: O GrETUA é o grupo de teatro da Universidade de Aveiro…

Hugo: Sim, são um núcleo muito autónomo da Associação Académica de Aveiro, com quem trabalhamos desde o início, muito proximamente, e continuamos a trabalhar. Hoje em dia quem está à frente é o João Neto, que está a fazer um excelente trabalho também, mas neste momento a direção está a mudar. O GrETUA é um espaço mesmo experimental, que logo no início, há quarenta anos, já era um espaço de vanguarda, e que no entanto foi tendo os seus altos e baixos, como tudo. E no momento em que chegámos cá está a rebentar de novo.

Alia-se a isto o facto de, mais ou menos nessa altura, o José Pina assumir também a direção do Teatro Aveirense. Daí surge não só uma revitalização no teatro, mas também uma série de outras iniciativas, como o Festival dos Canais.

Miguel: Nos quais vocês estão envolvidos.

Hugo: Penso que já estivemos envolvidos em todos estes eventos, mas sobretudo no Festival dos Canais. Ou seja, do lado mais público e da autarquia começa a haver uma aposta mais forte na cultura, que acaba depois por se desenvolver em direção à candidatura a Capital Europeia da Cultura. E há simultaneamente vontades privadas, que geralmente vivem na precariedade e na teimosia. É o caso de um grupo de malta que tinha uma garagem e organizava concertos, e às vezes formações e outro tipo de eventos, muito ligados à música alternativa também. É o caso de pessoas como o Luís Macedo, que organizava concertos numa série de espaços, como o Mercado Negro e como a própria VIC. É o caso do João Pessoa, que esteve bastante tempo à frente do Mercado Negro. Esta contemporaneidade de vontades públicas e de vontades privadas cria o início de um novo ciclo que, com todas as suas forças e fraquezas, achamos que foi bastante propício.

Miguel: Traz um conforto. Não estás sozinho…

Do ponto de vista financeiro, estamos sempre aqui no meio daquilo que é sempre o problema na cultura e na criatividade. Já tivemos várias conversas. Aliás, houve uma conversa que tivemos aqui há umas semanas que me deu vontade de pegar nisto outra vez e de ter em áudio, porque os áudios ficaram mesmo bons. Eu tinha tirado notas só para depois publicar a entrevista no blogue, como já fiz com outro pessoal com quem trabalho. Foi o catalisador do podcast.

Nessa conversa fomos falando, e há coisas que me interessaram bastante. Esta ideia de que há uma linha de tempo, e que estamos a olhar para ela com um plano, com uma visão, com objetivos, mas é uma linha de tempo bastante longa e ao mesmo tempo elástica. A guest house é importante. Pode parecer a parte mais mercantilista da coisa, mas é perceberes que tens um prédio para manter, com tudo aquilo que é a maluqueira de manter um edifício com sessenta ou setenta anos. Há coisas que custam dinheiro. É perceber que uma guest house pode trazer algum cash e, a partir daí, começar a construir lentamente os diferentes projetos, até chegar a uma situação como agora, em que há uma sustentabilidade conseguida com o equilíbrio de diferentes coisas.

Ainda assim, manténs a tua prática artística, como se pode ver no setup que está aqui à frente para quem esteja a ver no YouTube. Manténs a tua flexibilidade. Não estás agarrado ao projeto a mil por cento, estás só a cem.

Hugo: a duzentos…

Miguel: Mas esta ideia de que aquilo que se cria a partir de um início há dez anos cria muito valor, não só para a cidade, mas para a tua comunidade de músicos. Esta ideia de que, mesmo quando temos projetos europeus ou coisas financiadas, eles têm de ser consequentes, não podem ser só uma forma de pagar ordenados. Serem consequentes com edições, com o networking entre músicos e artistas, serem projetos ligados à educação, à capacitação e à resiliência desta comunidade, que é sempre um problema. É um tema que nos toca a ambos, e quem te seguir nas redes vê que essa é uma preocupação tua: como é que as pessoas criam autonomia e como é que o trabalho pode ser remunerado de forma justa, ou pelo menos que não seja explorado.

Portanto, vejo que a casa e tu estão neste momento num ponto em que existe um equilíbrio, ou vários equilíbrios a vários níveis. Se arrancarmos pela questão mais financeira, como é que isto se desenvolve e como é que se sustenta?

Hugo: Eu chego cá sem capacidade de investimento. O que é que eu tenho? Tenho uma casa com um recheio muito interessante ao nível das artes, da mobília, mas a precisar também de muito carinho. E isto arranca todo de uma forma absolutamente DIY. Somos duas, três ou quatro pessoas, quando temos sorte, a pintar, a corrigir pequenas instalações elétricas, a renovar móveis.

Chegámos cá em abril de 2016 e em julho de 2016 estamos a abrir os nossos dois primeiros quartos na guest house. De que forma é que podemos sustentar o projeto, sobretudo numa fase inicial? Arrancámos com dois quartos, o quarto da pintura e o quarto da cerâmica, penso eu. Quando colocámos os anúncios, nem sabíamos se alguém iria picar ou não. Efetivamente, passadas umas vinte e quatro, umas quarenta e oito horas, temos a nossa primeira reserva. Penso que fizemos as últimas duas noites em direto, para conseguir ter a guest house pronta para a reserva, porque éramos duas ou três pessoas a trabalhar.

Mas a coisa rolou, começámos a ter boas reviews, as pessoas começaram a gostar de estar cá e começaram a dar-nos feedback do que achavam que faltava ou que podia estar melhor. Passados dois ou três meses já temos mais dois quartos abertos, que são os quatro quartos da guest house, e a essa altura começam a funcionar a full. Logo no ano seguinte, com esses quatro quartos a funcionar, conseguimos avançar para mais um andar, o andar da residência artística, que no início, durante o verão, também tinha de funcionar como guest house, para conseguirmos ter rentabilidade suficiente para manter isto. Porque na verdade são quatro contadores de água, quatro contadores de luz, não sei quantas internets, salários, seguros. É uma estrutura de gastos substancial.

Nós só entrámos em contacto com a Câmara Municipal ou com determinadas instituições, e aliás nem fomos nós que entrámos em contacto, foram eles que entraram em contacto connosco, quando fizemos a inauguração oficial da casa, passado um ano. Porque o nosso interesse durante o primeiro ano foi tornarmo-nos absolutamente autónomos. Hoje em dia temos a Navalha, associação cultural, que é o nosso lado associativo, e trabalhamos numa série de projetos europeus e em alguns projetos financiados. Mas muito antes disso interessava-nos ter autonomia financeira para poder dizer: se quiséssemos fazer isto sozinhos, sem financiamentos, conseguíamos. A partir do momento em que as coisas estão a funcionar, em que se nota um pequeno crescimento de ano para ano e percebemos que essa autonomia é possível, aí é que começámos a avançar para outro tipo de projetos.

Porque, como disse, gostamos muito de receber. Eu adoro considerar-me um estalajadeiro. Mas não é só isso que quero fazer da vida. E as pessoas que trabalham connosco, em geral, estão ligadas às artes e à cultura e têm interesse noutras áreas. Portanto, rapidamente começámos a desenvolver a parte da programação cultural, primeiro nessa base de ter um porto seguro para receber as pessoas da cidade que tenham interesse nestas dinâmicas. Depois começa a desenvolver-se mais e começam a surgir outro tipo de projetos. Começámos a ser convidados pelas instituições, sobretudo pela Câmara Municipal de Aveiro, para desenvolver projetos em parceria. Muitas vezes somos contratados para criar programação ou conteúdos para eventos da câmara, como é o caso do Festival dos Canais e da Bienal Internacional de Cerâmica Artística.

Miguel: Ao mesmo tempo que vais criando esta estrutura mais comercial da casa, vais trabalhando como que um investimento inicial neste networking, nesta passagem daquilo que é a proposta da VIC para a comunidade. E as coisas começam a vir de volta.

Hugo: Sim. O nosso interesse, no início, era que isto se sustentasse e funcionasse. Quando isso começa a acontecer, dá-nos margem para começar a trabalhar noutras coisas, muitas das quais, inclusivamente, nos saem do bolso. No caso dos eventos, por exemplo, oferecemos a porta toda aos artistas, fazemos alguma coisa de bar, mas muitas vezes acabamos por ter mais gastos do que receitas. Mas faz sentido.

Miguel: Faz sentido. Gostava de falar um bocado da casa e daquilo que é a programação da casa, que tem pouco a ver com o legado. Quando falamos de música, estamos a falar de espetáculos. No entanto, aquilo que é a ligação ao teu património e ao teu legado é algo que está sempre a acontecer também ao lado, talvez de forma menos visível.

Hugo: Eu não diria menos visível. Se calhar na nossa bolha estamos um bocado fora. Por exemplo, tivemos a questão do centenário do nascimento do meu avô, em que desenvolvemos um fim de semana com uns oito eventos pela cidade toda, em todos os museus.

Miguel: Porque o legado não é só do teu avô, é também dos teus tios.

Hugo: Sim, são os meus tios. O João, que infelizmente já não está cá, o Vasco, e a minha mãe, a Rosa Alice Branco, todos eles também ligados às artes e à cultura. Os meus tios trabalhavam muito em conjunto, em colaboração com o meu avô, na cerâmica, na pintura. É bonito crescer a ver isto.

A minha mãe puxou mais para o lado da literatura, e arrisco dizer ainda mais do que o meu avô, porque se focou nisso, embora tenha também outro tipo de trabalho, mais ao nível do ensaio, ligado à psicologia da perceção e às neurociências. Ela estudou farmácia e filosofia, depois mestrado, doutoramento. Tem este lado da poesia, e hoje em dia é efetivamente uma poeta estabelecida em Portugal, mas tem também este lado do ensaio. Lançou recentemente um livro sobre teoria da cor, que de facto teve uma aceitação brutal.

Miguel: É um legado familiar, e isto serviu também como propósito para trabalhares um pouco com a tua mãe.

Hugo: Sim. Já tínhamos trabalhado juntos uma série de vezes e tínhamos dado algumas conferências juntos, em que juntámos um bocado das nossas áreas de interesse. A minha mãe, por exemplo, é quem normalmente se encarrega da programação ligada à literatura cá em casa ou nos eventos que fazemos. E agora estamos com aquele projeto em que estamos a trabalhar com vocês também, que é um disco duplo de interpretações eletrónicas da poesia contemporânea portuguesa, em que a minha mãe obviamente está à frente da seleção de poetas e de toda a parte ligada à poesia, e eu estou a dirigir a parte ligada ao som e à música.

Foi a oportunidade de trabalhar com ela, e também de trabalhar com a minha família, por exemplo com o meu tio Vasco e com as minhas primas, que também estão ligadas a estas áreas, uma designer, outra ligada à dança. Sobretudo nestas questões mais patrimoniais, que são na verdade as questões em que eles se envolvem mais. Ainda agora, por exemplo, tivemos uma coisa em que já andávamos a insistir há muito tempo, e vimos a obra da Praça da República, o painel, restaurado. É uma coisa que está ali mesmo no centro e que já estava a ficar em bastante mau estado. Portanto, há sempre este trabalho de fundo, quer ligado à digitalização dos filmes, quer à tradução e publicação de um livro do meu avô, quer à conservação e à promoção em geral do património.

Miguel: Para entrarmos na reta final, há uma pergunta que para mim é importante: qual é a rede que tu tens? Não estou a falar da rede geral de parceiros e clientes, mas da rede que tens para pôr tudo em marcha. Isto é uma empreitada, tens muitas frentes ativas. Já falaste da Liliana, já falaste dos voluntários. Como é que isto tudo se ativa?

Hugo: No início isto são vinte e quatro sobre vinte e quatro. Posso dizer que fiz tudo o que existe para fazer nesta casa, desde arranjar canos a passar lençóis a ferro. Isso também me deu uma visão global sobre o meu negócio, e neste momento eu sei o que é que as coisas custam, sei como gosto que sejam feitas, quais são os resultados que procuro, sei o tempo que demoram e o esforço que exigem. Acho que isso é importante em quase qualquer negócio, a menos que se esteja a falar de coisas super especializadas em que efetivamente não tens hipótese de entrar.

Mas isto arranca com uma equipa muito pequena, que depois, havendo mais recursos, vai crescendo. Como te disse, a Liliana Caetano é a pessoa que hoje está à frente da guest house, apoiada pelo Marcelo, que esteve ligado ao Mercado Negro também, e hoje em dia são quase autónomos nessa área. E depois são apoiados também pelos voluntários.

Entretanto temos uma série de outras pessoas que trabalham connosco de forma mais ou menos continuada, como é o caso da Lana Gunjic, que também conheces e com quem já trabalhámos várias vezes. Começou a trabalhar connosco em gestão cultural, primeiro como estagiária, e acabou por vir trabalhar connosco a tempo inteiro, enquanto houve possibilidade de a ter cá. Porque efetivamente, como disse, não temos financiamentos contínuos na área da cultura que nos permitam manter isso, e para mim é um dos maiores tendões de Aquiles disto. Esta necessidade de estar sempre a contratar coloca-nos numa posição um bocado limitada.

É sempre aquela coisa do crescer ou não crescer, escalar ou não escalar. Temos uma perspetiva de manter as coisas com determinadas regras, um determinado propósito, uma determinada forma de ver as coisas. A equipa não pode ser muito grande. Mas na área da gestão cultural precisávamos de ter sempre alguém em gestão cultural e produção. Neste momento temos a Francisca Branco, que não é da família, curiosamente. Toda a gente acha que é, e já é da família, somos uma família feliz. A Francisca está sobretudo a trabalhar connosco na área mais da produção executiva, tudo o que são projetos como o in loco, este projeto europeu em que estamos envolvidos, e está a gerir connosco as dinâmicas da label também, ao nível de edições. Trabalha connosco desde há uns meses e vai continuar durante uns tempos.

Depois temos uma série de pessoas que trabalham connosco de forma pontual mas contínua, como é o caso da Gabriela Benedetti no vídeo. Uma série de colaboradores que se juntam a nós em projetos específicos. A Sara Delgado, por exemplo, nas questões mais de construção de estruturas. Uma estrutura que construímos para o Festival dos Canais é toda feita com noventa por cento de materiais reutilizados, e é a estrutura que nos permite ter tudo: cabine, bares, caixas, sombra. É desenvolvida de forma relâmpago e com muito esforço pela Sara e por uma pequena equipa que ela reuniu. O Ricardo Pimentel, por exemplo, na técnica, e o Luís Ribeiro, que nos ajuda sempre também com a técnica nos eventos.

Ou seja, há uma série de gente que, sempre que temos possibilidade, é a quem vamos ligar, porque sabemos que trabalham bem, já estão habituados às nossas dinâmicas e facilmente se monta uma equipa. E mais uma série de gente, ou de cá de Aveiro, ou pessoas novas que vão aparecendo e que nos vão contactando, ou porque querem voluntariar, ou porque querem perceber o funcionamento e talvez dar uma ajuda, ou que se propõem para começar a trabalhar connosco. E depois alguma malta de fora, como é o vosso caso, com quem trabalhamos hoje em dia todas as questões, não só da comunicação, mas algumas ao nível do design. São pessoas ou estruturas com quem gostamos de trabalhar e com quem achamos que vale a pena dar continuidade.

Miguel: Nós sentimos um bocado do mesmo. Se calhar não precisamos de ter gestores culturais ou de projeto, que já os temos internamente, mas precisávamos de alguém que nos apoiasse de forma permanente na parte técnica, para não estar sempre no stress do “será que gravou, será que ficou bom”. Trabalha-se com o que se tem.

Uma última questão. Na nossa última conversa não falámos ainda da VIC NIC e dos discos. Já vais na décima segunda e na décima terceira edição.

Hugo: Cá fora, neste momento, oficialmente, isto está até à zero zero sete, que é a Cinestesia dos Estóicos, do João Salcedo. Entretanto estamos a chegar a uma série de edições que atrasaram um bocado, por várias razões. Algumas têm a ver com distribuição, com o facto de querermos, por exemplo, saltar fora do Spotify. Outras prendem-se com o facto de eu, neste último ano e meio, me ter dedicado bastante a um projeto pessoal ao nível da música, que também vai ser editado, e a desenvolver outros projetos. Não tendo uma equipa grande, basta que a pouca equipa que há se comece a focar em determinados aspetos para que haja outros que acabam por sofrer um pouco. Mas as coisas continuam depois, quando há recursos para continuar.

Miguel: Disseste nessa conversa que tivemos que a editora é um buraco onde se mete dinheiro. Mas também é um projeto de longo prazo, e as coisas acabam por vir de volta, se tiveres um foco e uma coerência.

Hugo: Sem dúvida. A editora é, de certa maneira, um luxo. Nós pensamos nela de duas formas. Por um lado, como um dispositivo de circulação de obras. Muitas das nossas edições estão diretamente ligadas a projetos artísticos desenvolvidos pela Navalha ou aqui em casa. Portanto, é um dispositivo de circulação de obras não apenas sonoras, mas também escritas e visuais. Por outro lado, é um ponto de encontro para misfits dos audiovisuais, técnicos, criativos e pensadores que para nós têm visões muito frescas daquilo que é a música, e que nos dão vontade não só de trazer as obras à luz, mas também de contar com eles no seio da família. A grande maioria das pessoas que editamos são pessoas que depois vamos convidar para projetos, para workshops e para trabalhar connosco a vários níveis, porque efetivamente são pessoas em cujo trabalho acreditamos.

Neste momento estamos mesmo a finalizar a zero zero oito, que vai sair sob a forma de Hidrofo. Já chegaram as caixas, estão em impressão os materiais que faltam, e é um disco digital com curadoria do Jorge Barco, um artista sonoro e curador colombiano que também é muito amigo nosso, trabalha no Museu de Arte Moderna de Medellín, e que vem com um microfone de contacto que ele próprio constrói. Vai ser uma edição super limitada, mas é mesmo muito bonita, e que nos dá muito trabalho.

Depois temos a zero zero nove, cuja edição digital já saiu, que é a From Chronos to Kairos, uma compilação em que partilho a curadoria com a Raquel Castro. Tivemos um artista sonoro que, com os participantes de um workshop dele, gravou as paisagens sonoras aqui de Aveiro. Depois esses sons são enviados a oito artistas internacionais, entre os quais a Kate Carr e o KMRU, por exemplo, que desenvolvem a partir desses sons peças sonoras ou faixas mais eletrónicas.

Temos o disco de uma banda da Sérvia [confirmar nome]. Lá está, são uns destes misfits para nós. Foi o primeiro que chegou, e tu estavas cá no dia em que abrimos as caixas, não foi?

Miguel: Sim, sim.

Hugo: É um disco de uma banda para nós incrível, em que acreditamos e que já tocou ao vivo connosco numa série de ocasiões. E depois temos mais outro, também de área digital, de um grande amigo nosso aqui de Aveiro, o Grave, que tem participado nestes eventos do in loco e nestes projetos europeus, e que é hoje em dia uma pessoa com quem partilho muitas das minhas preocupações nerds em torno dos sintetizadores, do equipamento e do espetáculo ao vivo. De como é que apresentamos isto ao vivo de formas que sejam interessantes e que nos dêem o máximo prazer.

E depois temos mais uma série deles, alguns dos quais em que vocês estão a trabalhar também, como é o caso do [confirmar nome], o tal de que falámos há pouco, da poesia. O meu projeto também está para sair. Acabámos agora de receber uma proposta de uma pessoa que conheci em Londres, uma eco warrior, super trash techno, que nos enviou uma proposta de edição que aceitámos com muito gosto. Portanto, a coisa está num momento com muito andamento.

Miguel: A editora, felizmente. E eu fico muito feliz por fazermos parte disso. Muito obrigado, e vamos lá ver como é que isto sai. Esperemos que tenha gravado tudo.

Hugo: Obrigado, Miguel.

Miguel: E a quem está a ouvir, muito obrigado por terem aguentado. Não foram meia hora, foram quarenta ou cinquenta minutos, mas se chegaram até ao fim é porque gostaram. Muito obrigado, e brevemente teremos um novo episódio.